Elisa Nassoni - Alimentação e Cultura

Nossa comida participa da construção de nossos corpos físico e psíquico. Esta articulação entre alimentação como substância química e como substância psíquica constitui um desafio em meu trabalho como psicóloga. Percebi, desde o início, que um dia teria que abordar este assunto.

Crescemos ouvindo que precisamos comer para viver, ser inteligente e tantas outras coisas. Nos dias de hoje, compreendo que se alimentar envolve não só as substâncias químicas. Quando ouvimos uma música, ela pode alimentar os nossos sentidos e nos sentimos plenos. Uma coisa é certa: precisamos comer. Outra coisa também é certa: comer não é tudo.

Foi nesta encruzilhada que construí o ponto de vista de que, ao comer, entramos em contato com muitas emoções e são elas que nos equilibram ou desequilibram. A interação entre o que sentimos e o que ingerimos, bem como o que fazemos com isso e como transformamos e absorvemos os diferentes nutrientes ainda é uma questão a ser mais pesquisada.

alimentação e cultura

Podemos comer uma comidinha equilibrada do ponto de vista nutricional. Entretanto, se estamos ansiosos, podemos sofrer uma má digestão e acidificar tanto que os nutrientes não serão bem aproveitados.

Sabemos que a fundamentação de que os alimentos naturais são mais saudáveis é inegável em qualquer lugar do planeta. Assim como os alimentos não-naturais (artificiais) são prejudiciais. Exemplificando, cuidar de uma pessoa ansiosa com nutrição irá tratar somente os sintomas bioquímicos. O intervir com a psicoterapia numa pessoa ansiosa vai cuidar dos sintomas psicológicos.

alimentação saudável

Sabemos que não é possível cuidar de tudo, entretanto temos uma memória e um instinto. Sabemos mais coisas do que imaginamos. A experiência é carregada de saber. Somos frutos de relações familiares que nos deixaram um legado de conhecimento cultural. Essa base ancestral precisa ser resgatada. Esse é um laço poderoso entre o corpo e a alma. Entre o que nos faz bem e o que é prejudicial. As receitas de conduta, de culinárias, de cuidados e tantos outros podem restituir o vigor.

O alimento associado a práticas terapêuticas pode ser uma aliança bastante interessante na recuperação do equilíbrio. Uma pessoa que se apresenta sobrecarregada, nervosa e está sedentária pode ser ajudada com acompanhamento fisioterápico, se necessário uma consulta médica e sugerir que procure usar alguns tipos de chás e banhos restauradores com ervas naturais.

O trabalho com o psicólogo ajuda a ampliar a consciência e a terapêutica natural contribui para uma aproximação com a natureza que existe dentro de nós. Nas leituras sobre diferentes culturas, deparo-me com receitas indicadas para curar ou melhorar “vários males”. A cozinha árabe, por exemplo, usa carne crua na preparação de seus pratos.

A carne crua pura é sem sabor e até de difícil digestão. Para “corrigir” ou realçar o sabor, utilizam-se temperos e, dentre eles, a erva hortelã. A erva aromática, hortelã é bastante difundida como tempero e como chá. No tempero da carne crua, suaviza o odor exalado pela digestão da carne. Auxilia na digestão e o aroma traz uma sensação agradável de disposição e vitalidade. O corpo parece se abrir a estes nutrientes que estão na sua forma integral. Não há concentração de nenhum nutriente, pois a natureza se mostra ajustada. As culturas tradicionais têm muito conhecimento e não se desestabilizam com as novidades. Mas colocam em ação o conhecimento milenar - unindo mente, corpo e alma.

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