Sobre o Arrependimento - Número 2

Outro dia li um texto sobre arrependimento. Naquele ângulo, o autor afirmava que a frase "Não me arrependo de nada do que fiz!" era uma afirmação hipócrita, mentirosa. Isso porque não somos perfeitos e, óbvia e conseqüentemente, cometemos erros e acabamos por trazer sofrimento ao outro.

Tal fato implica na ressonância do sofrimento, ou seja, o mal que cometemos acaba por se refletir em nós porque, lá no fundo, ninguém quer maltratar ninguém. E tinha um quê de Lei de Talião - sabe aquele imperador romano que se baseava no "olho por olho e dente por dente"? Pois é.

arrependimento

O mundo macroscópico, no qual atuamos com nossos cinco sentidos – vemos, ouvimos e sentimos – é regido pela Mecânica Clássica. Ou seja, a maçã caiu na cabeça do Newton sem precisar da influência dele, ou seja, sem a influência do observador.

Então. Não concordo com nada do que ele diz. Esse pensamento me parece muito castrador, muito "crime e castigo", sabe?

Vamos por partes.

A partir do momento que você toma uma atitude que gera um ferimento no outro, obviamente que pela Lei da Ação e Reação (ou Lei do Retorno), alguma coisa volta para você. Existe um preço, uma conseqüência. Isso repete um pouco a posição do autor que mencionei.

Porém, tudo é aprendizado. Esse mal (que é só ausência de Bem, como já escrevi antes) serve de alerta para nosso crescimento. Ao tomar consciência daquilo que se fez e ao assumir uma nova atitude, a pessoa cresce e o mal acaba virando um Bem.

E tem mais. Arrependimento não é um sentimento nobre coisa nenhuma. O que você sente no corpo quando lembra de algo que você fez do qual se arrepende? Um aperto no peito, não é? Dói no corpo, não dói? Então não pode ser bom - se gera dor, não pode ser bom. Arrependimento não é uma coisa boa, portanto. Quer mais? Saudade também não é uma coisa boa - dói no peito. Saudade é só fome da energia do outro, mas isso fica para outra hora.

adequação atitude flogisto

Sim, estou quebrando todos os conceitos morais sobre o arrependimento, sim. Arrependimento gera culpa, que gera castigo, auto-punição e auto-execração. Uma avalanche de coisas ruins: a coisa ruim que eu fiz gerou um sentimento ruim dentro de mim, que gerou outro sentimento de castigo, que me trouxe somente mais sofrimento.

Uma coisa eu garanto para você. Naquele momento você fez uma coisa que hoje você julga incorreto, certo? E no momento? Você saberia ter feito diferente? Você tinha o discernimento que você tem hoje naquele momento? Você era a mesma pessoa que você é hoje?

Será que tudo isso não aconteceu para que você (e o outro também) acordasse para determinadas falhas internas e corrigisse-as?

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- Ah, mas eu tratei o outro como um empregado, um escravo, um Zé Ninguém!

Foi, tratou. Tratou mal sim. Cheio de orgulho, preso na vaidade, pensando que é o máximo e o outro o mínimo. Foi, tratou mal. Sabia fazer diferente? Não sabia. E o outro? Por quê se deixou tratar assim, feito paninho de chão? Porque é molenga, tem auto-estima baixa. Será que tudo não aconteceu para que os dois acordassem?

E agora, de longe, um pouco mais velho? Você faria novamente?

Provavelmente, não.

Cultivar o arrependimento como uma seqüência sem fim de castigos, colocando-se para baixo, condenando-se eternamente, gerando crenças castradoras só traz mais dor para si. A Lei de Talião caiu faz mais de dois mil anos, gente! Acorda!

Crescimento só existe com o relacionamento entre pessoas. E não é só com sorrisos e gentilezas que a gente cresce. Precisamos conhecer o outro lado (lembra do texto sobre opostos?) para valorizar o lado de cá.

E auto-punição já é até brega, hoje em dia. Saia dessa vida. Perdoe-se, aceite-se e busque crescer a cada dia, evitando erros anteriores, mas sem drama, tá? Sem drama, dentro das possibilidades que você tem. Acabou.

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